Sinto muitas saudades.
Sinto muitas vontades.
Eu sinto muito, em muitas horas.
E ás vezes eu não sinto nada.
Sinto que tudo poderia ser diferente,
se não fosse o tanto que eu sinto,
e o tanto que eu sempre preciso sentir.
Sinto que eu perco muita coisa.
Sinto que me perco.
E sinto mais ainda pelas coisas que se perdem.
Sinto, por que qual o sentido de não sentir?
Por que não sente o tanto que eu sinto?
Quer que eu te ensine a sentir?
Sente muito, ou não sente?
Afinal, o que sentes?
Acho que não devo mais sentir,
mas gosto muito do que sinto.
Me ensina como não sentir?!
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
por não estarem distraídos
"havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. por causa de carros e pessoas, às vezes se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. como eles admiravam estarem juntos!
até que tudo se transformou em não. tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. então a grande dança dos erros. o cerimonial das palavras desacertadas. ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. no entanto ele que estava ali. tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
tudo, tudo por não estarem mais distraídos".
Clarice Lispector
até que tudo se transformou em não. tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. então a grande dança dos erros. o cerimonial das palavras desacertadas. ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. no entanto ele que estava ali. tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
tudo, tudo por não estarem mais distraídos".
Clarice Lispector
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