terça-feira, 27 de julho de 2010

ele e eu

Ele sempre tão ausente, e eu tão indiferente.
Tão parecidos e tão distantes.
A gente tinha a vontade de amar, mas o medo de apertar.
Tão simples e tão complicado.
Almas livres presas por corpos com finas linhas chamadas de parentesco.
A filha que dava o sermão, o pai que errava o caminho.
Egoístas tal qual.
Pra ele eu era o tatu, pra mim ele era o careca.
A gente não conversava muito, mas os olhares se entendiam.
Não vou esquecer nunca dos tapas na testa, da tua graça e dos lanches da madrugada.
Tentarei esquecer as mágoas e as palavras pesadas, se você prometer que fará o mesmo por mim.

Queria que você me visse agora, pai. Como eu brinco de mulher entendida. Como eu trabalho direitinho. Como eu tenho bons e grandes amigos. Queria que você visse que eu cresci, mas que eu ainda sou tua menina, seu tatu. O tatu que vive se escondendo e que ainda tem vergonha de dizer Eu te amo.

Saudade dói, pai.
Dói muito

além de mim

Meu mundo não tem trave, não tem via, não tem tempo nem espaço.
Meu mundo se mexe quando me esvazio, ou quando me endireito.
Meu mundo quase sempre tá do avesso, na contra-mão das regras e no sentido oposto da realidade.
Meu mundo não cabe em lugar nenhum, não tem parte nem todo.
Meu mundo enxerga aquilo que o olho não vê, e o que a mão não alcança.
Meu mundo é feito de sobras, de retalhos, de peças de quebra-cabeça abandonado.
Meu mundo tem a idade da soma de todas as vidas que vivi, ainda que dividido por todas as pessoas que eu fui.
Meu mundo não tem porta, nem janela, nem chão, nem teto.
Meu mundo vai além da tua cortina, da tua retina e do teu bom senso.
Meu mundo não tem fim, nem começo, só tem meio.

Meu mundo é só meu porque ainda não encontrei ninguém que conseguisse enxergá-lo além de mim.